Link Supesp: Superintendente da Supesp fala de representatividade, carreira e início na área da segurança pública

7 de março de 2026 - 10:40

Texto: Carol Araújo/Ascom Supesp
Fotos: Juliana Mendes e Daniel Galber
Arte: Juliana Mendes/Designer Supesp

Sendo a primeira mulher a liderar uma das vinculadas da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS/CE), Juliana Barroso, atuou em estados como Rio de Janeiro, Goiás, Pará e São Paulo, sempre com foco em planejamento e execução de políticas públicas de segurança. A titular da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp) falou ao Link Supesp sobre sua trajetória e a experiência adquirida em outros órgãos públicos, como o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), em Brasília, e na Secretária de Segurança Pública do Rio de Janeiro.

Natural do município de Itapipoca, no interior norte do Ceará, a superintendente explica como a sociologia trouxe desafios para seu trabalho e como isso resultou no reconhecimento até chegar ao cargo na Supesp, assumido em agosto de 2025. “A carreira acadêmica foi algo transversal para mim. Quando iniciei na sociologia, nunca imaginei que chegaria a um cargo de gestão. Eu iniciei na área chamada intrafamiliar e cada vez mais a segurança pública foi me puxando”, destaca a superintendente ao relatar sobre o começo na área.

Para Juliana, o início na área da segurança pública veio como uma curiosidade que se transformou em compromisso e responsabilidade com a população. “Eu iniciei na área da segurança pública para entender as questões do gênero feminino e como impactam a vida das mulheres”, conta a superintendente em entrevista.

Ela ressalta a importância de trabalhar com dados e pesquisas e como os resultados, baseados em planejamentos, transformam a maneira de enxergar a sociedade. Estudos, resiliência e responsabilidade são fatores essenciais para uma carreira de gestão bem sucedida.

A virada de chave: da sociologia para a segurança pública

Link Supesp: Sendo formada em Sociologia, como é atuar na área da Segurança Pública?

Juliana Barroso – Nunca imaginei que fosse seguir pela segurança pública e isso me deixa pensativa às vezes. A sociologia traz ferramentas para entender a área da segurança e trabalhar com ela tendo visão ampla das coisas e ao mesmo tempo uma visão mais restrita, dessa forma é possível entender a dinâmica do trabalho. Então, a sociologia me ajuda bastante nesse sentido de compreender com mais precisão como a segurança pública é planejada.

Link Supesp: A partir de que momento a senhora iniciou na área da segurança pública?

Juliana Barroso – Com o interesse por questões de gênero e como existiam muitos assuntos que envolviam violência, eu procurava entender como se dava o impacto na vida das mulheres. Iniciando um estágio no Ministério da Justiça, participei de um projeto chamado Pnud*. Esse projeto tinha muitos casos de violência familiar, então, por consequência, ficava próximo da área de segurança pública. A secretaria que eu atuava era a Secretária Nacional de Segurança Pública que, naquela época, ficava subordinada ao Ministério da Justiça. Ao finalizar o estágio, foi publicado um anúncio na Universidade de Brasília com vaga de socióloga para fazer análise criminal, dessa forma, veio o meu interesse pela vaga e migrei para a Secretária Nacional de Segurança Pública (Senasp).

Link Supesp: Quando se fala em segurança pública, o que mais chama a sua atenção?

Juliana Barroso – As questões políticas, o pensar e elaborar a política pública e me interesso ainda mais pela execução propriamente dita. Conhecer os bastidores dos cenários operacionais, essa é uma parte que me traz fascínio. A elaboração, corroboração, incidência da política pública, mas a execução era algo que chamava mais a minha atenção, na qual eu gostava muito e trago muito dessa bagagem para a superintendência.

Link Supesp – Qual foi o maior desafio que a senhora passou nessa área da segurança pública até o momento?

Juliana Barroso – Na época que trabalhei como subsecretária de segurança pública do Rio de Janeiro, eu estava com um projeto de ocupação no Complexo da Maré e era algo pacífico por ser voltado para rodas de conversas com os moradores. Eu tive a honra de trabalhar com a Marielle Franco, que era moradora do Complexo e também trabalhava como assessora de Marcelo Freixo. Mas no meio do processo, o governador daquele ano decidiu entrar na Maré e isso afetou todo o andamento do que tinha sido feito. Devido a um problema de saúde que tive, precisei me afastar para passar por uma cirurgia na coluna.

No pós operatório, quando o governador tinha entrado na comunidade, o meu chefe me ligou e disse que a comunidade queria dialogar só se fosse comigo; então tive que escolher se continuava na recuperação ou se eu iria. Eu fui, conversei com os moradores e expliquei a situação. A invasão foi realizada pelo Exército e como a Secretaria de Segurança Pública não tem controle sobre isso, eu também tinha sido surpreendida; então foi um momento difícil porque estávamos junto à comunidade, tecendo um projeto a várias mãos e de repente vem uma decisão política e corta tudo aquilo que tínhamos planejado.

Atuação como primeira mulher em uma vinculada da Segurança Pública do Ceará

Link Supesp – Como foi receber o convite para ser superintendente? Era algo almejado ou foi uma surpresa?

Juliana Barroso – Eu já atuava na Supesp como diretora de Pesquisa e Avaliação de Políticas de Segurança Pública e o então superintendente foi chamado para a sua instituição de origem. Tenho a impressão de que esse percurso se deu com muita naturalidade, a partir daquilo que foi realizado por mim e pelo que participei em outros estados e no governo federal. Entendo que quando nós trabalhamos e nos dedicamos com empenho, o reconhecimento vem.

Link Supesp – Ano passado, na Supesp, foram feitos alguns projetos e um deles foi sobre letramento racial. Como ações como esta podem auxiliar no andamento da segurança pública?

Juliana Barroso – Na própria Constituição consta que a segurança pública é uma responsabilidade de todos e quando se fala de todos, estamos falando não só de pessoas, mas também de outras estruturas. Não fazemos políticas públicas sozinhos. Dessa forma, quanto mais houver diálogo e cooperação com outras áreas, mais rico é aquilo que nós entregamos. Pensando nos colaboradores, com essa mesma perspectiva de que não somos independentes, é também muito positivo para o trabalho. O intuito de prepará-los para que eles tenham os ensinamentos e saberem preparar projetos com excelência é necessário. A preparação precisa vir primeiro com eles e deles e depois fazer uma execução do que foi proposto. Isso envolve saber os termos corretos sobre racismo, o que se fala, o que está ultrapassado, para dessa maneira colocar em prática de forma mais inclusiva.

Link Supesp – Pensando na sua gestão da Supesp, como se constrói uma tomada de decisão rápida e eficaz?

Juliana Barroso – Dados! A sociologia me ajudou com as pesquisas e a metodologia científica. Desde que iniciei na área, ela tem sido pautada por evidência e dados. Nos setores que trabalhei, coordenadorias e secretarias, foram realizados diagnósticos e após isso elaboração e execução de políticas públicas. Com o trabalho exercido, ofereço os dados para basear as decisões estratégicas e assim conversar com as outras chefias, a partir do que é realizado aqui e com a experiência profissional que tenho toda baseada em evidências. Posso dizer que tive a sorte de encontrar pessoas abertas ao diálogo e com sensibilidade.

Link Supesp – Sendo a única mulher no papel de gestão de uma das vinculadas da SSPDS do Ceará, como a senhora enxerga o papel das mulheres nessa área?

Juliana Barroso – Para mim é essencial, porque é um olhar e uma forma diferente de lidar com as situações. Nós, mulheres, exercemos uma maior dedicação para sermos ouvidas e atendidas. Isso já foi pior, mas na área da segurança pública ainda é muito recente a questão da representatividade. Eu acredito que a mulher em um papel de gestão, ela encara como um desafio, nós temos mais coragem para expor o nosso ponto de vista e é uma responsabilidade enorme, porque nós fazemos um duplo esforço para estar em um papel de gestão. Por conta disso, quando assumimos uma posição de destaque, exercemos com sensatez e equilíbrio.

Link Supesp – Existe algum projeto novo que gostaria de iniciar? Algo pessoal?

Juliana Barroso – Eu queria fazer Letras, ultimamente tem me dado essa ideia; apesar de estar afastada da literatura. Devido ao trabalho, é costume ler textos técnicos. Mas eu gosto bastante da área da escrita e da leitura. Obras de Clarice Lispector e Machado de Assis me instigam bastante. Pode vir um projeto nessa área.

Link Supesp – Qual o legado mais importante que pretende deixar para a área da segurança pública?

Juliana Barroso – Fazer da Supesp uma instituição de peso científico e técnico reconhecido não só no Ceará, mas por todo o Brasil. Pretendo fazer do órgão uma referência para que quando as pessoas precisem saber como é a segurança pública do Ceará, elas tenham a Supesp como base. Desde que saí do Governo Federal, as políticas públicas que ajudei a implementar estão sendo realizadas e quando percebo isso, eu penso que fiz a coisa certa. Enquanto gestora, trabalhei para que os projetos fossem continuados. Esse é o legado que eu quero deixar aqui.

Link Supesp – Diante dos projetos realizados em 2025 e no início de 2026, quais são os planos para os próximos meses deste ano?

Juliana Barroso – O meu grande projeto para esse ano vai ser a Caravana Supesp, por enquanto esse nome é inicial e apesar de não ter sido confirmado ainda, existe a pretensão de viajar para as oito Regiões Integradas de Segurança Pública (Risp). O planejamento é sair um pouco daqui e ir para o território, levando diagnósticos com os dados e conversar com as pessoas do local, fazendo uma parceria sobre como podemos unir essas análises. Há, também, a vontade de criar uma proximidade com os batalhões (da Polícia Militar), as seccionais (da Polícia Civil) e os núcleos da Perícia Forense, percebendo a qualificação do que já existe e mantendo as parcerias com diálogos em relação às outras pastas.

*Pnud: É o Programa das Nações Unidas para o desenvolvimento. É a agência nacional da ONU focada no desenvolvimento humano sustentável e governança democrática.