Conhecimento e respeito: Link Supesp entrevista líderes religiosos sobre as ações de políticas públicas
13 de fevereiro de 2026 - 09:41
A sexta entrevista do Link Supesp é com os líderes religiosos Paulo Ricardo Muniz da Costa e Cirleide Rodrigues da Silva, conhecidos como Pai Ricardo de Xango e Mãe Bia de Pomba Gira, respectivamente. Assim como as demais, a entrevista tem o objetivo de informar e propagar um conhecimento sobre pessoas e projetos voltados para a área da segurança pública.
A equipe de reportagem da Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), visitou as lideranças na sede da Associação Pai Luiz de Aruanda, no bairro da Barra do Ceará, em Fortaleza, onde o Pai Ricardo e Mãe Bia são responsáveis pela instituição religiosa de Umbanda e as atividades de assistência social desenvolvidas no local.

Durante o encontro, os líderes religiosos de Umbanda, falaram sobre o início e fixação do terreiro na cidade, situações de preconceito e atuação das forças de segurança em relação aos povos de terreiro. Espiritualidade e conhecimento de políticas de segurança para as comunidades tradicionais fizeram parte da entrevista realizada com os pais de santo. Ambos desenvolvem trabalhos de inclusão e saberes ancestrais na comunidade onde atuam.
Em agradecimento às forças de segurança pública, Pai Ricardo e Mãe Bia mencionaram a nova plataforma de mapeamento dos terreiros “Encruzilhadas em Rede”, lançada em janeiro, no Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ), uma parceria da Supesp com a Secretaria de Igualdade Racial (Seir). Para os líderes religiosos, a plataforma surgiu como algo “benéfico” aos povos de comunidades tradicionais no combate ao preconceito.
A cerimônia de lançamento contou com a presença da superintendente da Supesp, Juliana Barroso, da secretária da Igualdade Racial, Zelma Madeira, de lideranças do Centro Cultural e representantes de terreiros e comunidades tradicionais.
Início do terreiro
Link Supesp: Há quanto tempo vocês atuam no terreiro? E como foi o processo de fundação do local?
Pai Ricardo – Nós chegamos aqui em 1994. Em 2009, nós colocamos o terreiro documentado e registrado. Antigamente, só podia registrar um terreiro se você fosse em um órgão que representasse a Umbanda. Embora tivesse a nossa prática, era necessário um apoio para montarmos um local e podermos exercitar a nossa religião de acordo com a nossa fé.

Link Supesp: Quais são as atividades que vocês desenvolvem na Associação em apoio à comunidade?
Pai Ricardo – Aqui nós desenvolvemos um trabalho de segurança alimentar, em parceria com o Mesa Brasil, doação de frutas, pelo programa Ceará Sem Fome e também entrega de leite. Aqui funciona também a Capoeira de Angola e Zumba. Disponibilizamos também o seminário Pai Luiz de Aruanda, que nós fazemos com vários temas voltados a nossa religião e participamos da festa de Iemanjá.
Combate ao preconceito
Link Supesp: De que forma o senhor acredita que podem ser reduzidos os índices de intolerância religiosa?
Pai Ricardo e Mãe Bia – Eu acredito que com ações na periferia, atividades educativas levando os nossos conhecimentos da religião e valorização das religiões de matrizes africanas. Recentemente, nós fomos convidados para um evento em Brasília e foi falado sobre a influência do afro-culturismo e afro-empreendedorismo. Então, são momentos assim que auxiliam na propagação da nossa religião e do nosso povo.
Link Supesp: Com o lançamento da plataforma “Encruzilhadas em Rede”, parceria da Supesp com a Secretaria de Igualdade Racial, o senhor imagina que a criação de políticas públicas serão mais eficazes para a proteção dos povos de terreiro?
Pai Ricardo – Com certeza, né?! Nós já tivemos políticas públicas que funcionaram; então tudo indica que vai funcionar ainda mais. É relevante para os povos de terreiro ter mais políticas públicas que contemplem as pessoas e a gente precisa acreditar no trabalho das forças de segurança, porque é o meio que também nos fornece proteção diante dos casos de preconceito.
Link Supesp: Vocês enfrentaram alguma dificuldade para poder firmar o local, tipo uma burocracia em relação a documentação?
Pai Ricardo – A cartilha do povo de terreiro diz que pela lei não precisa de documentação. O estado é laico, a pessoa pode fazer onde quiser. Burocracia de documentação nós não tivemos, mas antigamente tinha que passar por uma instituição e o local pedir para mãe de santo autorizar. Quem tivesse a condição de exercer o ofício de sacerdote dentro do local poderia fazer.
Participação da Associação na comunidade
Link Supesp: Como é feito o acolhimento das pessoas que chegam a fazer parte da associação?
Mãe Bia – Nós temos um momento de acolhimento psicológico por meio de rezas. A pessoa diz o que está sentindo e tentamos ajudar da melhor forma possível. Muitas pessoas que chegam aqui vêm com problemas psicológicos devido ao espiritual mal trabalhado. As pessoas acham que isso não existe, mas isso acontece e é um problema estrutural.

Link Supesp: Qual é o principal fundamento que o senhor utiliza para manter a associação?
Pai Ricardo e Mãe Bia – O principal fundamento é trazer a comunidade para perto de nós. Desde quando colocamos o terreiro, sempre pensamos num meio de manter a comunidade perto da gente. As festas que tem aqui, os seminários e as palestras, tudo isso aproxima a comunidade de nós, por mais que sejam espaços diferentes, porque nós temos a associação, onde fazemos as atividades e temos o terreiro onde praticamos a nossa religião.
Link Supesp: Em algum momento, vocês já foram desacreditados do conhecimento de vocês, alguém já duvidou?
Mãe Bia – Sim, sempre tem aqueles que não acreditam. Eu costumo falar que são os nossos “fãs”. Aqui, tivemos casos de doenças graves que foram curadas, pessoas que já estavam desacreditadas dos médicos, mas que se restabeleceram. As pessoas esquecem do poder espiritual e preferem continuar tomando remédios.
Link Supesp: Qual foi o caso que mais chamou a atenção de vocês aqui na associação? alguém que chegou muito debilitado (a) mas que teve um suporte de vocês.
Mãe Bia – Teve uma moça que veio com a mãe dela e estava com problemas de pele. Quando a moça me mostrou a pele dela parecia que ia cair. Lembro de ter começado a chorar e ela imaginava que eu estava com pena dela, mas não era. Eu estava esperando o que meus guias iam me dizer. A moça ficou curada. É importante que as pessoas entendam o poder das ervas e respeitem o espiritual, porque é dele que nós sacerdotes tiramos os ensinamentos.
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Link Supesp: Quais são os planos de vocês para o terreiro e a associação? Podemos dizer que o ano começou faz pouco tempo né?! Então, já tem algo previsto para 2026?
Pai Ricardo – Agora, em 2026, estamos com o projeto Malandraste, que é o projeto associação e que possibilitou que nos tornamos um Ponto de Cultura reconhecido pelo governo, tanto o Federal como o Estadual. Nesse mês de fevereiro, também vamos participar do desfile de Carnaval aqui em Fortaleza e na sequência temos programado também a Semana do Pai Luís de Aruanda, que é um evento feito aqui na associação e também temos atividades desenvolvidas no Centro Espírita de Umbanda General de Brigada Rainha Pomba gira.