Grandes profissionais, gestoras, mestres e…mulheres

8 de março de 2022 - 14:40 # # #

“É pelo trabalho que a mulher vem diminuindo a distância que a separava do homem, somente o trabalho poderá garantir-lhe uma independência concreta.” A frase é da escritora francesa e ativista, Simone de Beauvoir (1908-1986), que teve uma trajetória de vida marcada pela luta pelos direitos da mulher, pela literatura, política e filosofia.

A declaração de Simone ainda ecoa nos dias de hoje, fazendo-se, em pleno século XXI, necessária. A escritora estava certa. Entre as buscas pela igualdade é impossível não considerar o mercado de trabalho como parte primordial do processo. A representatividade feminina no meio profissional ainda pode ser considerada um desafio a ser superado, quando comparada a presença e reconhecimento concedidos aos homens.

Basta olhar os dados. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE – 2020) revelou que os trabalhadores do sexo masculino continuam ganhando mais: uma média de R$ 2.255 para eles e R$ 1.985 para elas. Além disso, a pesquisa mostrou que de 2012 a 2019, as mulheres cresceram apenas 2,9% em participação no mercado de trabalho.

Segurança Pública fazendo diferente

A Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp), vinculada da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS-CE), aplica o inverso em comparação ao restante do país. Seguindo a tendência de grandes empresas mundiais, a Supesp possui no quadro de colaboradores mais trabalhadoras do sexo feminino. Atualmente dos 33 profissionais, 18 são mulheres. No quesito gestão, a Supesp é formada por duas diretorias e duas gerências, onde ocorre a divisão igualitária de cargos de chefia entre homens e mulheres.

“É importantíssimo que órgãos e instituições, sejam públicas ou privadas, prezem pela equidade gênero nas contratações dos profissionais. Aqui na Supesp temos uma maioria de mulheres e isso é exemplo para darmos continuidade à transformação social que vem acontecendo ao longo dos anos, no mercado de trabalho”, afirmou o superintendente da Supesp, Dr. Helano Matos.

Gestora, mulher, mãe e grávida

Sheiliane Luz, gerente da Gerência Administrativo Financeira da Supesp (Gefin/Supesp), tem a responsabilidade inerente a milhares de mulheres do Brasil: trabalhar e ser mãe. “A gente tem que se adaptar à rotina da criança e se desdobrar. Meu marido me ajuda bastante e sempre dividimos tarefas, mas percebo que a própria sociedade não colabora. Vejo que ele não tem a mesma flexibilidade no trabalho para ajudar em algumas tarefas como levar nossa filha a uma consulta médica, por exemplo. Então é importante a gente cultivar mais a paternidade no ambiente de trabalho, que é um local nosso como de qualquer outro”, declarou Sheiliane, que além de ser mãe de uma criança de quatro anos, está grávida de cinco meses.

A gravidez é outro ponto determinante na carreira profissional da mulher. Ao contrário de países como Espanha e a Suécia, o Brasil ainda não possui licença “parental” (termo que unifica as licenças maternidade e paternidade), que dá ao homem o mesmo tempo de licença dado a mulher, quando nasce um bebê. “Não tem como prospectar cursos ou especializações, enquanto não nasce o bebê e não haja uma readaptação social. A carreira dá uma pausa nesse período”, concluiu Sheiliane.

Estatisticamente falando…

Os números mentem? Jamais, embora às vezes revelem, com a exatidão da matemática, dados desagradáveis como os relacionados à desigualdade de gênero. Uma pesquisa feita, em 2017, pela Universidade Federal Fluminense, em Niterói-RJ, com várias universidades do Brasil, mostrou que a Universidade Federal do Ceará (UFC), selecionou 59 candidatos para o curso de estatística, dentre eles apenas 17 mulheres (28,8%). A baixa representatividade pode estar associada ao preconceito.

“Já ouvi pessoas falando, até mulheres, que somos mais emotivas, que isso não pode existir nos números, porquê atrapalha. Isso é chato. Os sentimentos não tem nada a ver com nossa capacidade na profissão”. As palavras são de Lorena Cândido, 24 anos, formada em estatística pela UFC e, há um ano, assessora na Gerência de Estatística e Geoprocessamento da Supesp (Geesp/Supesp).

Compreende-se isso analisando um estudo feito pela ONU, em 2020, que mostrou que apenas 21% dos profissionais de tecnologia e exatas, do mundo inteiro, são mulheres. Lorena acredita que o desinteresse da mulher pela estatística, por exemplo, começa ainda na infância. “As mulheres não são incentivadas nas áreas de exatas e tecnologia, vejo claramente uma divisão na escola, sobre comportamentos para meninas e meninos”, afirmou.
Fora do ambiente escolar e dentro de casa, Lorena sempre teve apoio dos pais para escolher qualquer curso. “Quando eu disse que ia fazer estatística, eles nem conheciam direito a profissão. Mas sempre fui muito livre pra escolher qualquer coisa”, revelou.
Inserida no predominante universo masculino dos números, Lorena seguiu em frente nos estudos. Se depender dela, as estatísticas mudam e o sonho é fazer especialização na área de Ciência de Dados. “Acho importante essa representatividade”, finalizou.

Pioneira na família e conduzida por sonhos

“Vim de uma família muito pobre por parte da minha mãe. Ela veio pra Fortaleza de Solonópole, no interior, pra morar com os tios, ajudar dentro de casa e poder estudar”. Priscila Rodrigues, 35, assessora da Supesp, conta que a mãe tentou, mas não conseguiu se formar. “Meu pai morreu, quando eu tinha 14 anos e minha irmã, 10. Tudo ficou mais difícil pra gente. A responsabilidade ficou toda pra minha mãe”, declarou.

As dificuldades não tiraram nem um pouco a vontade de Priscila de vencer no mercado de trabalho. Inspirada na mãe, que virou referência de mulher batalhadora, buscou realizar sonhos. “Quando eu botei o pé na universidade pela primeira vez, eu disse: um dia ainda vou dar aula aqui”. Resultado: Priscila, que é economista, é a primeira e única pessoa da família que conseguiu fazer mestrado e agora segue firme no doutorado, todos pela UFC. “Já dei aula dois anos na UFC como professora substituta”, lembrou.

Quando resolveu fazer economia, Priscila sabia que iria encontrar um ambiente acadêmico repleto de homens. “Em 2013, na época do mestrado, meus professores achavam incrível ter três mulheres na sala. Eu ficava pensando se as mulheres não escolhiam humanas ou saúde, porque temiam um ambiente rodeado de homens. Mas eu escolhi mesmo o que eu gostava”, revelou.

Na Supesp, Priscila trabalha na Diretoria de Avaliação e Pesquisa (Dipas/Supesp) e encontrou um ambiente oposto. São seis pessoas trabalhando na Dipas e cinco são mulheres. “Aqui na Supesp é um espaço onde não vi essa diferença em áreas de exatas e toda a equipe é muito qualificada”, pontuou.
Segundo Priscila, a mulher precisa, apesar das dificuldades, acreditar no que ela ama fazer e ter determinação pra se posicionar como profissional qualificada. “Daqui a 10 anos, eu me vejo ainda mais envolvida na área acadêmica e na pesquisa. Gostaria muito de ensinar e dar meu retorno à sociedade. Tive bolsa no mestrado e eu entendo que é algo importante poder retribuir”, finalizou.

Equidade, já!

Assim como a Priscila, Talita Araújo, 29, assessora da Diretoria de Estratégia de Segurança Pública da Supesp (Diesp/Supesp), vem de família pobre. “Fui a primeira da família a entrar na universidade”, declarou Talita que é também mestre em Economia em Desenvolvimento. Segundo Talita, o fator financeiro da família não foi o único obstáculo a ser enfrentado ao longo da vida. Para ela, o fato de ser mulher pesa na caminhada profissional. “Eu me pergunto se a gente desiste de buscar cargos de liderança, ocupar certos espaços ou nem é chamada, porque precisamos suportar essa carga de trabalhos paralelos à vida profissional e que a gente convive ao longo dos anos”, pondera.

A declaração é muito influenciada pelo exemplo vivido dentro de casa, quando a mãe não conseguiu terminar o Ensino Fundamental por ter que cuidar de duas crianças – Talita tem uma irmã mais nova. “A nossa mãe teve que abrir mão da vida profissional dela em virtude dos trabalhos de casa e nosso pai, não. Eu sinto que para a mulher, ainda nos dias de hoje, continua o dilema de jornada tripla, a carga de trabalho extra à vida profissional é enorme desde sempre”, afirmou Talita, frisando que o exemplo da mãe a fez repensar a forma de seguir em frente.

Segundo ela, casar e ter filhos nunca foram planos principais. O casamento veio, mas ser mãe não é prioridade. “A área mais importante é minha carreira e isso tem a ver com as frustrações da minha mãe. Por causa do sistema, pela classe social e pela condição de ser mulher, ela não teve acesso a nada disso”, declarou. A mestre em economia pretende seguir no setor público, pois acredita que dessa forma vai poder contribuir para o bem-estar da sociedade. “Toda vida que eu puder produzir alguma coisa que tenha um impacto favorável pra lutar pela equidade entre homens e mulheres, farei”, finalizou.

As mulheres da Supesp são exemplos de sucesso e superação no mercado de trabalho. Elas são uma parte da representatividade de profissionais brasileiras que buscam a equidade de gênero em vários aspectos, apesar do desequilíbrio inaceitável e ainda insistente, em pleno 2022, entre homens e mulheres na esfera profissional. Certamente, Simone de Beauvoir diria novamente: “Ninguém nasce mulher, torna-se mulher”.